Levantamento em dez capitais brasileiras mostra que a maioria das estruturas está com inspeção atrasada — e que os municípios não têm orçamento para resolver o problema.
A norma técnica ABNT NBR 9452 exige inspeção anual em pontes e viadutos urbanos. No Brasil, a maioria dos municípios não cumpre esse requisito. Não por negligência declarada — nenhum prefeito quer ser responsabilizado por uma estrutura que cede — mas por uma combinação de falta de orçamento, ausência de cadastro atualizado e escassez de engenheiros especializados no setor público.
Levantamos os dados de inspeção de estruturas em dez capitais. O resultado: em sete delas, mais de 40% dos viadutos estão com laudo vencido há mais de dois anos. Em duas capitais, o percentual passa de 60%.
Uma inspeção completa de um viaduto urbano de porte médio custa entre R$ 80 mil e R$ 200 mil, dependendo da complexidade. Uma cidade com 200 estruturas precisaria gastar entre R$ 16 milhões e R$ 40 milhões por ano só em inspeções — sem contar as intervenções de manutenção que os laudos geralmente recomendam.
Para a maioria dos municípios brasileiros, esse valor não existe no orçamento. E quando existe, compete com saúde, educação e folha de pagamento.
A engenheira estrutural Mariana Fonseca, que trabalhou por dez anos no setor público antes de abrir seu próprio escritório, resume: "O problema não é técnico. É político e financeiro. Sabe-se o que precisa ser feito. Não há dinheiro e não há vontade de assumir o custo político de interditar uma via importante."
Especializada em mobilidade urbana e obras públicas. Formada em jornalismo pela UFRGS.