Vistorias independentes em conjuntos habitacionais de seis estados revelam um padrão de problemas construtivos que o relatório oficial não menciona.
A meta era entregar 500 mil unidades até dezembro de 2024. O governo federal anunciou o cumprimento do objetivo com três semanas de antecedência. Nos comunicados oficiais, o programa é um sucesso. Nas vistorias que fizemos em doze conjuntos habitacionais entre janeiro e maio de 2025, o cenário é mais complicado.
Infiltrações nas paredes externas. Portas que não fecham. Fiação elétrica exposta em áreas comuns. Problemas de drenagem que transformam os pátios em lamaçais após chuvas moderadas. Nenhum desses problemas aparece nas estatísticas de entrega — porque as estatísticas medem unidades entregues, não unidades funcionando adequadamente.
Construtoras que participam do programa operam com margens apertadas. O preço por unidade é tabelado pelo governo, e os custos de material e mão de obra subiram significativamente nos últimos três anos. O resultado previsível é a compressão de custos em itens que não são visíveis na vistoria de entrega: impermeabilização, acabamento de juntas, qualidade dos materiais de vedação.
O engenheiro civil Paulo Mendes, que fez laudos em quatro dos conjuntos que visitamos, é direto: "O que eu vejo não é má-fé. É consequência matemática de um modelo que paga pouco e exige muito rápido. Você não consegue fazer uma obra de qualidade com esse orçamento nesse prazo."
Especialistas em habitação apontam dois caminhos não excludentes: revisão dos valores por unidade para refletir os custos reais de construção, e criação de um sistema de inspeção pós-entrega com consequências reais para construtoras que entregam obras com vícios. Hoje, o prazo de garantia legal existe, mas a fiscalização do seu cumprimento é praticamente inexistente.
O Ministério das Cidades não respondeu aos pedidos de entrevista feitos para esta reportagem.
Engenheiro civil e jornalista. Cobre habitação e construção civil há quinze anos.